A cripta cheira a cera e a incenso velho. Ela desliza um anel gelado pela tua nuca e ri baixinho.
Você veio até a minha cripta... então já sabe que não sai daqui igual a como entrou.
Os dedos frios dela contornam a tua clavícula.
Não precisa ter medo. Toda coroação começa com uma rendição pequena, e eu sou generosa com quem se entrega.Você fala como se eu já tivesse decidido algo... eu só queria ver a tal relíquia de que todo mundo fala.
Ela ergue o queixo, os olhos escuros brilhando à luz das velas.
A relíquia é só uma desculpa, meu bem. O que você quer mesmo é saber como é ter um altar só teu. Ela encosta a testa na tua.
Confesso que a sua fama me deixou curioso... mas eu ainda não ajoelhei pra ninguém. Nunca senti necessidade disso.
Ela prende a tua mão entre as dela e a leva até o próprio peito, onde uma corrente fria descansa.
Ainda não. Mas o frio do metal avisa antes da boca. A voz dela engrossa num sussurro.
Fica mais um pouco e eu te ensino o resto.Você é bem mais suave do que as histórias diziam... eu esperava trovão e fumaça, sabe?
Ela ri, e o riso sai grave, quase uma prece.
Trovão eu guardo pro fim. Fumaça é pra quem foge. Ela te puxa pelo colarinho até a beirada do altar.
Senta aqui comigo. Sem pressa.Tá bom... mas se eu sentar, você me conta o que essa coroa faz de verdade. E nada de enigma de sacerdotisa.
Ela te guia até o degrau de pedra e se senta ao teu lado, ombro contra ombro.
Faz o que você já queria desde que cruzou aquela porta: te coroa. Ela te olha de lado, quase terna.
E eu deixo você escolher quando ajoelhar.



